Uma Vida Para Viver, e escolhemos viver apenas um momento - Momento Vivere
"Uma vida é curta: mas, se cortarmos os seus pedaços mortos, curtíssima ela fica."
Viver apenas aquela viagem, viver apenas aquele final de semana, e muito mais. Hoje acordei pensando sobre isso, porque percebi que nos últimos tempos tenho vivido por uma pequena porcentagem da minha semana e, obviamente, uma pequena porcentagem da minha vida.
Lembro de ouvir o professor Clóvis de Barros falar: “Cada dia é uma vida a ser vivida”. Pois nesse caso, estou me matando a cada dia, a partir do ponto em que espero para viver apenas alguns dias.
De fato, quando esperamos algum determinado momento para reanimar nossa alma, chegamos mais rápido nesse dia. Mas isso foi a custo de quê?
O Controle Remoto da Vida
No filme Click, interpretado por Adam Sandler, temos um homem que ganha um controle de um anjo (não me recordo se ele era o anjo da morte); este controle permite que ele, apenas com um “click”, faça o que bem entender com a sua vida, como se ela fosse um filme passando no seu streaming.
Bom, e como vimos — se você não viu ainda, recomendo fortemente — ele escolhe pular os momentos “chatos”, “tediosos”, “inúteis”. Apenas quando ele estava no leito de sua morte, percebeu que tinha perdido praticamente a sua vida: perdido os momentos com as pessoas que ele amava; deixou no automático momentos cruciais na sua relação com sua esposa.
Mas o que eu queria falar hoje é que, de forma extrema, DEVEMOS parar de viver apenas por algum momento. Comparado com a imensidão do espaço-tempo, nossa vida já é curtíssima. Se deixarmos no automático apenas 30%, já é algo a se preocupar profundamente.
A Matemática da Vida Desperdiçada
Vou te mostrar alguns números para mostrar a gravidade da situação. Considerando uma vida de 100 anos, passamos em média 25 anos dormindo. Então, sobre o nosso controle, tem-se apenas 75 anos.
Se nesses 75 anos vivemos apenas 35% plenamente, desfrutei de míseros 26 anos de vida. Vinte e seis anos. Pense nisso.
O Testemunho de Clarice
Nas Crônicas para jovens: de amor e amizade, Clarice Lispector nos conta que um dia foi jantar com suas ex-colegas da faculdade de direito, da qual nenhuma, pelo visto, seguiu carreira:
“Tive um dia desses um almoço alegre e melancólico...melancólico também porque nenhuma de nós terminara sendo advogada. Advogada, meu Deus. Era só o que me faltava, eu que me atrapalho em lidar burocraticamente com o mais simples papel.” — Clarice Lispector - Crônicas para jovens: de amor e amizade
Meio que foi algo “inútil” se você olhar por um ponto de vista simplista: ficaram quatro ou cinco anos em uma faculdade para simplesmente não seguir o que se preparou para fazer. Ela mesma admite que não passou de um erro:
“...a escolha do curso superior não passou de um erro. Eu não tinha orientação, havia lido um livro sobre penitenciárias, e pretendia apenas isto: reformar um dia as penitenciárias do Brasil.” — Clarice Lispector - Crônicas para jovens: de amor e amizade
E para completar mais ainda a minha questão de que é fato que vivemos pouco, ela joga na nossa cara que, se tirarmos os pedaços mortos, curtíssima ela fica. Logo após falar do pedaço morto da sua vida que foi a faculdade, ela escreve em bom tom:
“Ora, mas quantas outras coisas inúteis eu já havia vivido. Uma vida é curta: mas, se cortarmos os seus pedaços mortos, curtíssima ela fica. Transforma-se numa vida feita de alguns dias apenas?”
A Inutilidade é Uma Escolha Nossa
E é exatamente isso. A maior parte da nossa vida vai ser de momentos aparentemente sem brilho, monótonos ou sem sentido aparente. Porém, aqui está a questão: o que torna esses momentos vazios somos nós. Nós transformamos esses momentos em desperdiçados.
Usando o exemplo da Clarice, a faculdade de direito provavelmente a levou para algum lugar. Não sei se foi direto para a Literatura ou se essa experiência a conduziu para outra coisa que, por sua vez, a levou para literatura. Mas o ponto é que nada na nossa vida é realmente perdido. Nós colocamos esse senso de mediocridade nela.
E como disse Clarice:
“Tomei um táxi que me deixaria em casa, e refleti sem amargura: muita coisa inútil na vida da gente serve como esse táxi: para nos transportar de um ponto útil a outro.”
Não Existem Dias Inúteis
No fundo, não existem dias inúteis, existem dias não vividos.
O “automático”, o “tédio”, o “sem sentido” e a “espera pelo momento certo” são apenas nomes diferentes para o mesmo erro: adiar a vida.
Quando vivemos apenas por viagens, finais de semana ou eventos especiais, transformamos o resto do tempo em pedaços mortos — não porque eles sejam vazios em si, mas porque nos recusamos a habitá-los com presença.
Cada dia carrega o mesmo potencial de significado que uma grande conquista ou um momento marcante. A diferença está na intensidade com que o atravessamos.
Assim como o táxi de Clarice, os momentos aparentemente insignificantes não são o destino, mas são o caminho. E desprezar o caminho é, no fim, desprezar a própria vida.
Memento Vivere
Viver cada dia como se fosse uma vida. Viver cada dia como se fosse o nosso último. Ensinamentos que tive ao ler meu primeiro livro, Meditações, de Marco Aurélio, e agora me recordo depois de ler esse relato na vida de Clarice.
“Em todos os momentos, enquanto ser humano e cidadão, pensa com firmeza em realizar a tarefa em tuas mãos com dignidade simples e perfeita, um sentimento de afeto, liberdade e justiça. Liberte-te de todos os outros pensamentos. Serás liberado se fizeres cada ato de tua vida como se fosse o ultimo...” — Marco Aurelio - Meditações, Livro II, item 5
Os momentos aparentemente vazios, quando vividos intensamente, tornam-se únicos. Sempre disse que a real beleza está nos detalhes: desde cada obra de arte natural de Deus; desde a simplicidade de Jesus, levando amor e misericórdia para cada um de nós; desde os detalhes em uma obra de arte.
Os detalhes tornam cada coisa nesse perdido mundo mais uma lembrança que valeria a pena ser revivida e sempre será relembrada.
E para finalizar, nada melhor que a rendição de Clarice ao viver com intensidade, para alguns um memento mori:
“Bem, mas é preciso não esquecer que a parte inútil fora, na hora, vivida com tanto ardor (por Direito Penal). O que de algum modo paga a pena.”






meu deuss disse tudoo, eu to exatamente nesse periodo da vida em que faco a mesma coisa todo dia e to tentando sair desse automático