Estar, Não Ser
Uma Reflexão Sobre Identidade
Atualmente eu estou programador, mas amanhã eu posso estar uma coisa totalmente diferente.
Pronto, podia acabar a newsletter aqui, desligar meu computador, continuar tomando meu café amargo, porque meio que já falei tudo que era necessário para mostrar o que venho tentando iluminar para meu subconsciente.
Mas seria um assassinato ao meu futuro “estar” fazer isso. Falo isso porque esses dias estava em êxtase para ir para um lugar paradisíaco e apenas escrever e correr.
O Perigo de “Ser”
A melhor parte de apenas “estar” é que não rebaixamos o nosso bem mais precioso a apenas um mero serviço. Sim, quando “somos” programadores, quando somos médicos, ou qualquer outra coisa, rebaixamos a nossa Vida.
Eu não sou programador, sou um ser humano, igual a você que está lendo esse texto agora. Sou uma pessoa que ama a Vida, que apesar de às vezes ela dar uma baqueada, ainda agradeço muito por tudo que ela vem me proporcionando.
E esse ser, pelo visto — como vamos ver mais para frente — tem como fim a busca da verdade, tentar entender o mundo que o rodeia.
As ocupações, claro, não podem ficar fora da equação. Vou chamá-las de “Meio”: usamos esse “Meio” para atingir o nosso fim da busca incessante da verdade.
Minha ocupação atual me tirou da zona de conforto e me colocou em contato com o mundo real, com problemas do mundo real. Trouxe uma iluminação de várias coisas, tanto internas quanto externas, que, por bem ou por mal, me colocaram mais perto da verdade.
Quando você diminui a sua vida a uma simples ocupação — que, por mais tecnológica que seja, comparada com a criação de Deus não é nada — perdemos a oportunidade de chegar mais e mais perto da verdade. Ficamos presos a um rótulo que é apenas parte desse Todo Poderoso. Por que ter apenas uma parte quando podemos tê-lo todo?
“Isolar assim de comunicações o seu objeto é falseá-lo, pois suas relações fazem parte dele mesmo.” — A.-D. Sertillanges, A Vida Intelectual
O Exemplo dos Polimatas
Leonardo da Vinci é um grande exemplo de usar as ocupações como meio. Os polimatas têm essa habilidade de estar, e não de ser. Da Vinci não esteve apenas pintor: esteve engenheiro, anatomista, arquiteto, cientista, e mais alguns.
Se ele tivesse “sido” pintor, ia se rebaixar e ficar preso nesse campo. Ele não seria o Leonardo da Vinci que todos conhecem hoje, porque tudo que ele fez ajudou em alguma outra ocupação que tinha.
Voltando ao meu exemplo como programador. Apesar de passar boa parte do tempo programando ou estudando programação (que no final eu estudo quando programo e vice-versa), no tempo fora dessa minha ocupação, gosto muito de entender outras coisas.
No momento estou lendo muitos romances clássicos, mais especificamente agora “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski. Gosto deles por ser uma escrita profunda, do fundo da alma do escritor, trazendo experiências de vida que eu só encontraria vivendo e errando (algumas coisas realmente vou encontrar só errando, rs).
Além dos romances, leio também Filosofia, que é um campo no qual venho entrando muito nos últimos tempos. Ano passado, fiz um mês de faculdade de Filosofia, mas como estava iniciando minha experiência no trabalho, tive que sair. Mas isso não me impediu de continuar estudando — até hoje estou nas obras platônicas.
A Conexão de Tudo
O que isso me ajudou?
Romances: trazem uma visão de mundo e, quem sabe, uma experiência de vida parafraseada em uma história ficcional
Filosofia: especialmente as obras platônicas, me trazem a luz de sempre tentar entender o porquê das coisas, não ficar só com as respostas rasas que o mundo nos entrega por um valor muito baixo, e pensar por conta própria
Programação: me ajudou a usar a lógica (a filosofia também), a pensar como as coisas se conectam, a ser criativo, a entender a dor das pessoas e, consequentemente, conectar com elas
Essa criatividade me ajudou na criação de conteúdo.
Percebeu o quão tudo isso se conecta? Se a filosofia não tivesse me ensinado a pensar por conta própria, nunca teria sido o programador que estou hoje. Se a programação não me mostrasse a lógica, nunca saberia ler um livro de filosofia ou nem estaria aqui escrevendo e gravando vídeos. E se o romance não me mostrasse as experiências de vida, nunca teria achado um emprego ou conectado com as pessoas.
E o que eles mais têm em comum? Todos eles são ferramentas que nos ajudam a SER humanos melhores. Estando nessas coisas, aprendemos sobre as experiências da vida, sobre a lógica do mundo e de Deus, sobre pensar por conta própria e qualquer conhecimento que você necessitar.
Uma Sede de Entender
Falei que sou um ser humano em busca da verdade. Pensando mais um pouco, talvez no fim todos estejam em busca de alguma verdade (ou não). Minha tentativa de dar um “propósito diferente” acabou fracassada com um propósito mais que genérico, quase unânime.
Esta minha definição vem de uma reflexão que tive alguns dias atrás. Enquanto estava no trabalho, há 2 horas quebrando cabeça com um problema, decidi desligar um pouco. Nesse meio tempo do desligamento até a volta ao trabalho, entrei em um estado que eu gosto de chamar de “A Intervenção Divina”.
É um estado onde eu simplesmente estou com o corpo no mundo material, mas minha mente entra em um plano mental, no qual visualizo tanto o passado, presente e futuro. Nesse dia, e nesse plano, eu descobri algo sobre mim: a sede de entender.
A Força Que Nos Atrai
Existe algo maior que nós, uma força que nos puxa constantemente. Einstein nos mostrou que corpos com grande massa deformam o espaço-tempo — pense naquela demonstração clássica da feira de ciências, com uma bola pesada sobre um lençol criando uma depressão.
Acredito que algo similar acontece no plano espiritual. A verdade age como esse corpo massivo, criando uma atração da qual não podemos — e talvez não devamos — escapar. Nossa sede de entender não é uma escolha consciente; é uma força natural que nos puxa em direção a ela.
Para mim, esse evento se chama “A sede de entender”. Como Aristóteles nos ensinou com a teoria da causalidade, talvez a verdade seja a grande Causa Primeira, onde tudo se origina e para onde tudo retorna.
O Chamado
Estou começando a acreditar que o Deus que minha família sempre tentou me enfiar goela abaixo agora está me chamando de outra forma — e é inevitável que eu me apaixone por Ele.
É interessante isso, porque se formos para Provérbios:
“A Sabedoria clama nas ruas [...] levanta a sua voz nas praças; prega à entrada dos lugares ruidosos; às portas das cidades faz ouvir suas palavras: até quando, ignorantes, amareis vossa ignorância? [...] Convertei-vos [...] e eu espalharei sobre vós meu espírito [...] estendo minha mão e ninguém me dá atenção.” — A Bíblia, Provérbios 1, 20-24
A sabedoria sempre esteve chamando. Talvez eu só não estivesse pronto para ouvir.
O Que Isso Tem a Ver?
Tudo. Porque essa sede de entender não me permite apenas aceitar minha ocupação atual, ou como chamamos nesse texto, do meu “estar” atual. Não porque ela quer, mas pelo simples fato de ser uma força natural, de ser um evento inevitável.
Como os estoicos nos ensinaram: “A principal tarefa na vida é simplesmente esta: identificar e separar as questões fora do meu controle.”
Então, por que não se deixar levar? Por que não parar de tentar ir contra a correnteza, tentar não cair na deformação no tecido espaço-tempo? Isso só vai trazer mais cansaço, mais tristeza, porque nunca vamos conseguir ser mais fortes que essas forças.
Agarrar-se a essa força e segui-la talvez seja uma das melhores formas de viver uma vida perante a verdade ou, falando como cristão, perante Deus, Jesus.
Quem sou eu para falar qual é a melhor forma de se viver a vida, não é mesmo? Um homem de 20 anos, que tem 1 ano de carreira. Mas não é possível que em 20 anos eu não consiga tirar nenhum aprendizado.
Fim.
Recomendação: Clovis de Barros Filho
Os que são próximos a mim sabem que tenho uma paixão muito grande pela Filosofia. E por ser um assunto muito difícil de ser entendido para quem nunca teve contato, quem consegue trazer de uma forma de fácil entendimento considero um grande homem.
Penso em estar professor justamente pelo fato de achar a profissão mais bonita de todas: a profissão que ensina o ser humano a pensar, que enriquece almas e, claro, ganha dinheiro para simplesmente estudar.
Um dos professores da internet que me fez começar a estudar e a tentar entender mais o mundo que vivo foi Clóvis de Barros Filho. Ele é um explicador nato, ele consegue entregar a filosofia mais sofisticada de uma forma que até uma criança de 8 anos entenda.
Essa semana vi uma palestra dele na qual ele fala sobre “A Vida Que Vale a Pena Ser Vivida”. Recomendo muito “perder” essa 1h20 do seu dia — sério, sua alma agradece.





