Carta ao meu Eu do passado
Obrigador pequeno Augusto
Limpando a poeira da minha mesa, me deparei com várias fotos minhas quando mais novo, creio que tinha entre 4 a 6 anos. Fiquei olhando para elas e pensando: “O que esse menino pensava da vida? Quais as coisas que o faziam feliz?”
Apesar de ser eu, não me recordo assim de cara muito bem o que essa criança pensava, então decidi escrever uma “carta” para ela.
Para o meu Eu do Passado
Olá Augusto,
Provavelmente você não vai ler essa carta porque você odeia ler, qualquer tipo de leitura; minto, até que o livro “O Diário de um Banana” você conseguiu terminar boa parte da coleção.
Como estão as coisas? Mamãe me contou que você alugou Shrek 3 pela quarta vez na locadora, porque nas 3 últimas o CD estava arranhado.
O porquê dessa carta é simplesmente para te mostrar que, apesar de estar bem distante de você, tanto em questão de espaço mas também em questão de tempo, eu ainda estou aqui. Graças a Deus não aconteceu nada de ruim comigo no decorrer dessa imensidão do espaço-tempo.
Também para tentar recordar de alguma forma coisas que vivemos, que pensamos, que fizemos juntos; mas antes de tudo te agradecer por ter ajudado a me tornar quem eu estou me tornando cada dia.
Antes de tudo mesmo, tenho que te pedir desculpa. Estava com uma mania de te difamar para as pessoas, te colocando como um grande “pirralho” que era “chato”, “insuportável”, e falei até que se eu te encontrasse na rua, daria algum jeito de te bater (sério, qual o sentido de bater em si mesmo e em uma criança?).
Você adora perder seu tempo brincando de colher. Levanta, toma seu leite com Toddy que a vó Lanita faz para você, come um pacote de bolacha recheada (Danix ou Passatempo, as melhores) e depois vai na gaveta da cozinha, pega uma colher — tem que ser uma colher com cabo, essas são mais grossas e tendem a ser mais robustas para manejar na criação de ideias.
Senta em algum lugar isolado dos outros, e ali você cria uma história atrás de outra, cria um mundo. Fica mais rico ainda esses momentos quando você vê filmes e quer criar continuações e se inserir nessas continuações, ou até mesmo da última vez que me recordo, que durante 2 anos você criou uma história que todo dia completava ela ali com a colher.
Para os outros que viam você nesses momentos, provavelmente te consideravam louco: um menino sentado com uma colher na mão girando ela e fazendo barulhos com a boca.
Aqui onde estou não se faz mais isso. Lembra daquele aparelho que a mamãe tinha que você jogava o jogo da cobrinha? Ele evoluiu e as pessoas ficam nele o dia inteiro, só que não ficam criando mundos com a imaginação. Pensa que elas ficam só na parte do filme, não tentam extrair nada dele.
Estou falando isso porque é um ponto que tenho a te agradecer. Esse ato seu vem gerando muitos benefícios para mim aqui. Meu trabalho exige usar muito a cabeça, e agora estou criando conteúdo (igual o Davy Jones com os piratas kkk, só que eu não xingo igual eles) e, se não fosse essa habilidade de imaginar as coisas, de conseguir visualizar um mundo na minha cabeça, nada disso seria possível.
Sobre o meu trabalho, não é medicina. Sei que o seu sonho era que eu virasse um pediatra, mas vou ter que te contar algo que descobri: era o sonho da mamãe, não o seu. Conforme você for ficando mais velho, vai ver que a maior parte das pessoas não tem sonhos próprios, elas querem viver o sonho de outras pessoas.
O porquê disso? Talvez pela falta de fazer as pessoas pensarem por conta própria. Passamos 12 anos ou mais sentados apenas repetindo fórmulas e, depois disso, na faculdade, acha que vai mudar? Não, só piora.
Mas voltando ao assunto, até que estou gostando do meu trabalho. Te garanto que é melhor que como você está hoje, provavelmente decorando fórmulas no Professor Modesto.
Tenho um ano de carreira e estou ganhando algo que eu achava ser incapaz de ganhar. Isso vem comprovando minha tese de que dinheiro nunca vai ser o suficiente. Há 1 ano, quando eu estivesse ganhando X, falava que estaria satisfeito, mas agora estou ganhando 2X e quero mais. Estou tentando ser mais grato nesse ponto, minha vida nunca esteve tão boa e fico com essa boba ambição descontrolada.
Não que seja ruim ter ambição, é muito bom — como eu sairia do lugar? Porém, agradecer pelo que já tenho e ficar satisfeito é diferente de me contentar com isso e não querer crescer mais.
Sabe, queria ter a sua cabeça. Lembro que teve uma época que você queria ser caminhoneiro, pensava pela própria profissão em si mesma, de conhecer outros lugares. Nunca colocava dinheiro como fim.
As pessoas, conforme vão envelhecendo e se corrompendo com o mundo, sempre querem saber só de dinheiro, e acaba que fazem as coisas na maior infelicidade apenas para no fim do mês poder ter o dinheiro na conta.
É complexo isso, porque infelizmente, você não conhece ainda, mas o mundo “é assim”. Então meio que às vezes temos que fazer “o que não gostamos”, mas isso, para mim, é papo furado. Gostar é diferente de amar.
Não que eu ame programar, mas é algo que gosto de fazer e, consequentemente, eu ganho dinheiro com isso, então é melhor eu fazer isso do que sair para vender proteção veicular no sinal.
Mas estou fazendo o máximo para fazer as coisas por elas mesmas, sem ficar me distraindo com outras coisas. Gosto de dizer “sem confundir os fins”. Como te disse, estou criando conteúdo, e deu certo o canal, mas às vezes fica muito em baixa e isso me desanima, mas isso é um exemplo claro de confundir os fins. Não criei o canal com o intuito de ter milhões, mas simplesmente pelo fato de compartilhar minhas ideias.
Lembra que falei sobre as pessoas ficarem muito no smartphone? Está tanto que parece que nunca existiu a vida sem eles. No encontro com os amigos que você fazia com o Pedro, Enzo, Bruno, agora se resumem em cabeça curvada e uma tela. Como era bom quando inventávamos coisas para fazer.
Acho que deveria te contar sobre nossa casa. Mamãe separou e veio morar em Uberlândia. Foi difícil para mim quando decidi vir, mas depois de um tempo nem quero mais voltar para Patos. Esse receio que vem na gente quando fazemos algo “arriscado” é bem interessante, e talvez isso seja um dos fatores das pessoas não saírem de onde estão. Bom, considere isso um achismo, estou cansado de ter certezas.
Sim, cansado de ter certezas, e quantas certezas você tem, pequeno Augusto. Certezas sobre o mundo, mas não falo isso pressupondo que o mundo não tem verdades, mas é que as certezas que temos, elas são baseadas em vento. Apenas por ter escutado alguém falar que isso era o certo, e quem me garante que a certeza dela também não está apoiada no vento?
Outro ponto importante que torna essas certezas mais falsas ainda... Não experimentamos elas na realidade. As ideias estão nos fatos, não vivem por si mesmas. Você vai descobrir isso quando estiver mais velho, mas se conseguisse entender isso agora, ganharíamos uns 2 anos de vantagem nessa corrida que estou hoje.
Eu fico pensando se vale a pena te falar o que fazer, porque seria hipocrisia minha mudar algo em você, porque você me fez quem eu sou hoje. Pensando aqui, dá para falar uma coisa que, se você tivesse ignorado, não faria muita diferença: não ligar para a opinião de quem não te conhece de fato, aquele “amigo” que vira e mexe te dá uma opinião, mas ele não te conhece realmente para te “ajudar”.
Tenho saudade de tanta coisa que fizemos. Se eu fosse falar delas nessa carta, seria uma imensidão. Jogar videogame com nosso primo depois de chegar do conservatório na casa da nossa bisavó; comer aquele sorvete dela, nossa, que saudade; chegar da escola e assistir desenhos tomando um leite com Toddy e comendo uma bolacha recheada; jogar bola sozinho, fingindo ser o Messi ou o Cristiano, era só a gente e a parede; ficar ansioso para subir a rua para jogar bola; andar de bicicleta o dia inteiro; passar o dia inteiro assistindo filmes sem se distrair com telefone; como disse, é muita coisa. Se eu for escrever tudo, meu amigo, vamos ficar aqui só falando disso.
Papai casou com uma pessoa incrível, ela tem o coração gigante. Ele também mudou muito, está mais próximo da gente. Agora acho que ele deixaria você assistir Zorra Total. Temos um irmãozinho por parte de pai e também uma por parte de mãe. Sim, você se tornará o irmão mais velho.
Vou te contar um segredo que vamos fazer esse ano... Vamos para a Disney. Lembro que você tinha muita vontade, mas com o passar dos anos perdemos isso um pouco. Agora não estou ansioso pela Disney, mas para conhecer outra cultura. Acredito que vai ser muito bom, vou escrever falando como foi.
Nossa família continua linda, crescendo cada dia mais. Como agradeço a Deus por ter me dado essas pessoas.
Eles ficaram em Patos, só eu e mamãe que viemos para Uberlândia. Moramos com o Jairo aqui, o novo namorado da mãe. No próximo fim de semana dessa quinta que escrevo essa carta, vamos para lá — ou para você, para aí. Vou ficar a semana.
Nosso medo de perder a vó e o vô ainda existe, mas pedi a Deus que eles durem mais um tempo ainda, que seja feita a vontade dele.
Bom, acho que falei tudo que queria, ou pelo menos que me lembre. Se recordar de algo depois, envio uma parte 2. Até a próxima, eu do passado.
Indicações
Livros
O Jogador - Das memórias de um jovem
Aleksei Ivánovitch, jovem professor pobre na fictícia Roletemburgo, mergulha no vício do jogo enquanto enfrenta amores não correspondidos e intrigas familiares. Dostoiévski retrata magistralmente a compulsão destrutiva, a ilusão de controlar o acaso e a busca desesperada por lógica no caos da roleta — reflexo da própria experiência do autor com o jogo.




